20
Ago

Agroflorestas: Cultivo sem Desmatamento

Marlene Assunção, dona de uma agrofloresta conta: — Quando me falaram, achei que era coisa de maluco. ‘Plantar sem desmatar a floresta? Vai semear como? Vai ter que fazer casa em árvore e morar que nem índio’. Hoje eu entendo. As coisas vão estar aqui para nossos netos. É menos egoísta.

Quem observa, pode pensar que a mata não tem interferência humana, isso pela quantidade de arvores existentes. Mas, caminhando pela área, o visitante identifica a grande variedade de alimentos brotando de arbustos e das próprias árvores. Limão, açaí, manga, acerola, caju, banana, laranja e muito mais. Vale frisar que nada ali está por acaso. As espécies geradoras destes frutos foram cuidadosamente plantadas neste terreno. Estamos falando de uma Agrofloresta.

As Agroflorestas ou sistemas agroflorestais biodiversos (SAFs), estão ganhando relevância no Brasil como uma alternativa que alia a produção de alimentos com a preservação das florestas. Vale lembrar que a produção de alimentos é necessária, pois a população é crescente (seremos 8,5 bilhões de Homo sapiens em 2030, segundo estimativas da ONU). Tão necessário quanto, é a preservação das florestas, já que o planeta precisa manter seus recursos naturais e, assim, frear as mudanças climáticas. O conceito preconiza que a agricultura pode se beneficiar, e muito, de áreas intensamente arborizadas.

A prática agroflorestal não é nenhuma inovação, já que existe há décadas, aliás, há milhares de anos, mas agora começa a receber a devida atenção, disseminando-se pelo país.

Agricultura Sintrópica

Trata-se do uso de dinâmicas naturais para enriquecer ou recuperar o solo, que se torna apto para a produção agrícola, sem a necessidade de fertilizantes químicos, apenas usando os recursos naturais. E sem devastação da mata.

Mas, para aproveitar ao máximo o que a natureza oferece para o cultivo, o manejo da floresta é fundamental. Com frequência é preciso podar árvores, até mesmo derrubar algumas delas, e deixar os resíduos no solo. São estes resíduos (galhos e folhagens, por exemplo) que espalham na superfície os nutrientes absorvidos, anteriormente, pelas raízes das árvores nas camadas profundas da terra.

Quando cheguei, há 20 anos, a terra era seca e o solo rachado, quase pedra. Depois que comecei a agrofloresta, mudou tudo. É este solo verde, de terra preta. Não precisa de enxada, você cava com o pé, de tão macio — descreve Adeílson Ataliba, de 63 anos, que dedica dois hectares de seu terreno, em Silva Jardim, ao cultivo de café, tangerina e palmito.

Quando a proposta é cortar árvores da tão degradada Mata Atlântica, pode parecer negativo, mas órgãos e ONGs ambientais dão força à prática feita de forma consciente. O Ministério do Meio Ambiente apoia agroflorestas em diferentes regiões.

Em Presidente Figueiredo, na Amazônia, uma nova parceria entre a ONG Imaflora e empresas compradoras da produção, vão fornecer apoio técnico para adoção de sistemas agroflorestais a centenas de famílias que produzem o guaraná, por exemplo.

As práticas agroflorestais são muito usadas para recuperar áreas desmatadas. Exemplo disto é a Fazendinha Agroecológica em Seropédica.  Em parceria com a Embrapa e a UFRRJ (Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro), juntamente com a Pesagro (Empresa de pesquisa Agropecuária do Estado do Rio), o projeto teve início nos anos 1993, numa área de 70 hectares. Espécies que precisam de mais nutrientes foram dispostas em fileiras, com frutíferas e madeireiras de valor comercial. Árvores de rápido crescimento foram colocadas junto a essas espécies “exigentes”, para dar sombra e material orgânico. Hoje, o terreno, coalhado de vegetais, serve de área de pesquisa e aprendizado para estudantes.